Capturar o Mutável

As pessoas acabam por me perguntar porque é que não tiro fotos de mim ou porque escrevo. Eu respondia sempre “porque sim” visto que a resposta parecia-me óbvia. Eu não quero recordar-me fisicamente. Eu sei como o meu aspeto exterior é, como fui. Olhos verdes, cabelo louro escuro, pele branca, unhas roídas. Aquilo que quero recordar é o que me envolve. A mente é algo muito engraçada no ser humano. É a mente que nos comanda, que nos faz tomar decisões, que nos ajuda a recordar o passado. Há certas memórias que permanecem no teu lobo temporal como se fossem vividas há um dia atrás quando já se passaram anos. Há outras memórias que, sem impacto nenhum, se foram desvanecendo do teu ser. A cada dia, as velhas recordações vão ser substituídas por novas, os novos conhecimentos vão ficando entranhados e os velhos serão levados pelo vento. É essa a rotina – sem ela, o cérebro acumulava tanta informação que acaba por nos deixar malucos. E é por isso que decido fotografar algo que não seja eu. O meu físico não irá alterar muito, mesmo que pinte o cabelo ou me bronzeie. No entanto, o meu íntimo, as emoções e sentimentos que senti naquele momento, a forma como os objetos de observação se encontram posicionados de forma harmoniosa na hora que tiro a fotografia, as minhas ideias e pensamentos, o pôr-do-sol, aquela flor que pediu para ser capturada pela sua beleza, tudo isto acaba por mudar. A vida tornou-se efémera a partir do momento em que és criado e não há maneira de a guardar toda a não ser através de meios visuais e escritos. A necessidade de capturar o mutável é enorme já que a mudança é aquilo que te faz evoluir.

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