✒ quanto mais tento, menos funciona.


Estava a escrever a sequela do meu livro quando uma música começou a tocar. Who You Are da Jessie J - esta era a música que ouvia nos momentos em que me sentia perdida. Lembro-me perfeitamente de estar no último ano do ensino básico e de ouvir esta música na sala do aluno, escrevendo-a num caderno que servia de terapeuta. Na verdade, era o caderno que usava para escrever coisas que, eventualmente, tinha de mostrar à psicologa. Esta música sempre teve um toque surpreendente em mim, tanto pela letra como pela melodia. Ainda hoje, a ouvi-la, sinto as lágrimas a quererem saltar dos meus olhos. 
Sê verdadeiro a quem és, Jessie J canta. O problema é que, na altura, eu não sabia quem era. Era uma miúda com depressão, sem amigos, perdida num mundo que não compreendia. Eu não sabia o que fazer além de me castigar por me ter perdido, por não ser melhor. O medo irracional de não ter controlo sobre mim, sobre o meu futuro e sobre o que pensavam sobre mim apareceu desde cedo. Eu não conseguia lidar com o sentimento de ser posta de lado, de ser criticada, de ser a rapariga triste da turma, de não ter amigos, de estar a falhar na escola, de ser um fardo. Quanto mais tento, menos funciona. Eu tentava ser melhor - mais sorridente, vestir-me melhor, ser mais amigável, mais disponível, menos emocional. Nada funcionava porque havia sempre alguém que me apontava o dedo a lembrar quem eu queria esquecer que era. 
Porque é que estou a fazer isto a mim mesma? Era o que me perguntava sempre que me magoava e que lembrava que estava sozinha. Eu merecia o que me faziam e o que eu me fazia porque eu não era alguém. Está tudo bem em não estar bem. Não, não estava porque ninguém compreendia o porquê de eu estar mal e todos julgavam. Eu era a rapariga com problemas em todo o lado e não conseguia resolver nada. Havia dias que nem eu sabia porque não estava bem, como esperava que os outros compreendessem? Lágrimas não significa que estás a perder. Mas toda gente sugere que sim. Havia sempre alguém que indicava que eu era chorona e apontavam-me o dedo enquanto se riam de mim, havia sempre alguém que dizia para sorrir mais porque era carrancuda, um bicho do mato. Perder a minha cabeça por um pequeno erro. Se é assim tão pequeno porque é que o apontavam sempre? Havia sempre desculpa e maneira de trazer tudo o que fazia de mal à tona. 
Pareço perfeita? Esqueci-me o que fazer para encaixar o molde porque houve tantas vezes que tentei ser igual a todos e não conseguia. Não conseguia ser igual a quem me comparavam e isso doia porque significava que nunca seria perfeita.
E não importa quantos anos passe, as memórias podem desvanecer mas a dor que senti estará sempre presente. 

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