☂ como lidei com depressão e ansiedade - e como ainda estou a lidar.

      Isto ainda é um tópico sensível para mim pois é algo que, se for dito em voz alta, as pessoas sentem pena instantaneamente. Não me interpretem mal, não estou a querer falar mal de quem faz isso, não é nada disso. É que sentirem pena de mim, ou de qualquer outra pessoa que passa pelo mesmo, não é o melhor, eu acho. 
      Sempre fui uma miúda muito calada e fechada. Tive vergonha de falar com as pessoas, era muito tímida. Lembro-me de os mais velhos falarem para mim e eu esconder-me para não ter de responder. Não conseguia fazer amigos facilmente como as outras crianças, responder às perguntas da professora era-me difícil. Só conseguia falar com quem já tinha confiança, e, ainda assim, era um pouco difícil. 
       Era e ainda sou introvertida, como disse no último post. Eu preciso de estar sozinha para recarregar baterias, não há outra maneira de o conseguir fazer. Passar muito tempo com um grupo de pessoas esgota-me facilmente; começo a ficar cansada mentalmente porque é demasiada interação pessoal ao mesmo tempo. 
        Assim, não era fácil ter amigos. Nunca foi fácil. Sempre sentia que incomodava se falasse com alguém que não conhecesse. Sentia-me a mais ao falar num grupo de pessoas. O meu coração batia muito forte, o meu corpo chegava a tremer. Ainda me acontece, por vezes. 
       Tudo começou no oitavo ano. Não entrando em muitos detalhes, vi-me sem amigos (ou achava eu que eram amigos). Na minha cabeça, eu estava sozinha. E, num momento em que estás a desenvolver, a criar ideias sobre o mundo, a perceber como tudo funciona, é complicado estar sozinha. Em casa, as coisas também não eram fácies. A diretora de turma obrigou-me a ir à psicóloga, o que ajudou bastante. Ainda assim, as coisas voltaram ao mesmo quando saí do básico e, por sua vez, saí do aconselhamento psicológico.
       As coisas continuaram turbulentas no secundário, ainda que tenha melhorado imenso. Comecei numa turma nova e percebi que EU tinha o poder de controlar se me afetavam ou não, de alguma forma. Ora, o facto de alguém me achar algo só me afeta se eu deixar. Vamos pensar no dia-a-dia: essa pessoa que disse isso conhece-me? Não. Então porque é que devo estar preocupada com o que Y disse sobre mim se não me conhece? Se fosse algum dos meus amigos a dizer isso aí sim, devia preocupar-me. Os de fora falam por falar e tendo a minha consciência tranquila, não me podem afetar.
       Foi na altura do secundário que também percebi, realmente, o que são relações tóxicas. Eu tinha uma pequena noção do que eram por causa dos filmes e assim, mas só por volta do 11º ano que percebi o que realmente era passar por uma coisa dessas. É desgastante, esgota qualquer energia que se tenha, qualquer sentimento positivo que se tenha, mexe-nos com a cabeça de tal forma que não nos apetece falar com mais ninguém, manipula ao ponto de achar que tenho culpa por algo que nem sequer fiz. Então piorou, tudo piorou nessa altura. A minha ansiedade e depressão chegaram a níveis que não tinham chegado antes: não conseguir estudar, sentimentos de culpa, cortar-me, desejar não ter nascido, foi um período intenso de emoções. Tudo isto porque queria ajudar alguém que não queria ajuda e não se importava comigo. Felizmente, percebi a tempo o que era e comecei a deixar a pessoa ir porque, como aquela frase cliché diz, "Às vezes aguentar dói mais do que deixar ir."
       O décimo segundo e o primeiro ano de universidade foram os que me mudaram imenso em termos de comportamento para com a vida. Comecei a sentir-me melhor comigo mesma, aceitar quem sou, aceitar que demoro mais do que os outros mas chego lá. As crises começaram a ser menos frequentes, apesar de serem mais intensas. A pressão de escolher o que queria seguir, ter notas suficientes para entrar na universidade, não entrar na primeira fase de candidaturas, não entrar na segunda, entrar na terceira e sentir-me um alien na turma porque já todos se conheciam, tirar a carta, perder o telemóvel, ir ao meu primeiro exame de recurso. Muitas coisas parecem pequenas em termos de significado e podem não parecer importantes, mas para mim foi tudo muito marcante e stressante.
       Agora é mais do mesmo, sinceramente. As crises são mais espaçadas mas intensas, ou há vezes que passo semanas a ser a pessoa que era antes, sem motivação, a querer acabar com tudo, a remoer sobre coisas que já nem posso mudar. Há dias que os ataques de ansiedade pioram e não sei explicar o porquê de isso acontecer. Há dias que está a correr tudo bem e apenas vou abaixo. Há dias que estou super bem e, no dia seguinte, acordo com o peso do mundo nos meus ombros. Há semanas produtivas, há semanas que quero desistir. Continua a ser uma mistura de emoções e sentimentos.
       Eu tentei medicação. Não funcionou comigo. Sinceramente, nem tentei trocar para outra porque eu não dou com medicação. Tinha medo de ficar dependente e não gosto de tomar comprimidos. Então tentei melhorar por mim mesma. Foi algo que precisava de fazer sem ajudas de terceiros, entendem? Foi necessário para mim mudar a minha perspetiva das coisas. E, desde então, muitas coisas boas aconteceram e é a isso a que me agarro quando estou desmotivada, ou até a coisas que fiz quando estava muito mal: tenho um grupo de amigos bons, escrevi um livro inteiro, fui a Sevilha, Bordeaux com o meu dinheiro, estou num part-time que requere falar com pessoas a todo o momento, consegui comprar roupa com o meu dinheiro, consegui comprar uma máquina fotográfica, estou a conseguir continuar com o blog, cheguei ao terceiro ano sem cadeiras para trás (esperemos que continue assim), tenho um namorado maravilhoso e compreensivo, tenho mais auto-confiança (ainda não estou totalmente no topo, mas vou chegar lá), estou a saber lidar melhor com as pessoas, tirei a carta, passei de caloira a doutora, tento ver a vida de uma forma mais positiva.
       Acho que depressão e ansiedade nunca passam por completo. Vão estar sempre pedaços disso dentro de nós. Eu pensava que tinha melhorado e afinal há dias que sinto-me como antes. Vai estar sempre presente, entendem? Não te definem mas acabam por fazer parte de nós, de uma maneira ou outra. O melhor é mesmo aprender a viver com isso e esperar que boas pessoas apareçam no teu caminho porque, honestamente, isso foi muito importante para mim. Não há nenhum truque secreto para lidar com isto. Então, respondendo ao título: não há uma maneira precisa de como lidar. Ou talvez haja e eu não a descobri ainda. A verdade é que o maior esforço tem de vir de ti porque não importa quantos psicólogos visites ou quanta medicação tomes, nada adianta se tu não quiseres. E não o digo da maneira mesquinha de "a culpa é tu", digo-o como "tu controlas porque o corpo e a mente são teus, só tens de aprender a fazê-lo, demore o tempo que demorar."


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