✒ diz-se e muda-se.

         Há coisas que acabamos por dizer aos mais novos com todas as boas intenções possíveis. Queremos que eles cresçam a melhor versão deles mesmo e que não façam os mesmos erros que quem já viveu mais tempo. No entanto, acaba-se por criar contradições muito devastadoras num jovem adulto, num adolescente que só quer tentar perceber o que está a fazer. 
         Dizemos aos pequeninos para terem coragem mas esquecemo-nos que os grandes também têm medo de coisas que são ainda mais irracionais, como medo de amar ou medo de crescer. Só por serem medos ditos "estúpidos" porque acontecem após situações más, não quer dizer que não sejam reais. Aliás, tenho medo de aranhas e nem sei como ganhei esse medo, apenas o tenho. É pior do que o meu medo de me tornar uma adulta desinteressada pela opinião dos mais novos, de me tornar numa adulta que apenas sabe trabalhar e chegar a casa para reclamar, de me tornar numa adulta sedenta por criticar os mais novos pelas escolhas más que teimam em fazer? Não. Os medos são ambos reais, ambos válidos.
         Dizemos aos mais novos para continuar quando estão aprender a andar e caem, mas dizemos aos mais velhos que não vale a pena continuar e que desistam dos seus sonhos pois o necessário é ter um plano concreto. Aquele menino que adora dançar desistiu porque os pais diziam que as outras pessoas o iam gozar. Ou aquela menina que queria ser astrofísica desistiu porque não era trabalho para uma mulher, seja lá o que isso significa. Desiste-se de ser pintor, cantor, astronauta, compositor, enfermeiro ou escritor por causa de pressões e estereótipos da sociedade que não sabe nada além da sua bolha de conforto.
         Dizemos aos miúdos para não crescerem porque ser criança é bom e não precisam de crescer rápido; contudo, eles crescem e pede-se que decidam o seu futuro inteiro numa decisão que têm de tomar em meses. Passam de ter de pedir para ir à casa de banho a decidirem algo que acaba por definir o seu futuro - segundo os mais velhos. E quando se muda de rumo porque se sabe que não é aquilo que quer, é-se criticado. 
         Dizemos aos pequenos para terem ambição de lutarem pelo que querem mas aos mais velhos dizemos que irão falhar porque se sente inveja ou simplesmente é difícil. Dizemos aos mais novos para experimentarem vários tipos de legumes e frutas porque são diferentes e podem gostar, mas quando crescem dizemos que devem ter apenas um rumo, gostando ou não.
         Dizemos às crianças para continuarem a estudarem e nunca deixarem de aprender, mas quando se é adulto, se trabalha e se estuda, seja o que for, é visto como perda de tempo e "devias focar-te no teu trabalho". Não posso fazer as duas coisas ao mesmo tempo? E se eu quiser tirar uma outra licenciatura? Um mestrado? Um doutoramento? É falta de tempo se eu investir na minha educação? Se eu quiser aprender línguas ou decidir querer estudar biologia quando não tenho qualquer contacto com ciências desde o 9º ano? Estava acabar de ver a série Genious quando uma frase muito gira foi dita por Einstein. Quando na cena final a menina lhe pergunta como ele tinha ficado tão inteligente, ele responde-lhe que apenas faz perguntas, só é curioso. E, assim, ele tornou-se um homem brilhante e único.
         Dizemos aos pequenos que a vida está cheia de monstros maus e que vão conseguir vencê-los, e a única motivação que se dá aos mais velhos é para crescerem e fazerem-se pessoas. Tens depressão? Sai mais que isso passa. Tens ansiedade? Dorme mais que isso passa. Tens OCD? Não sejas piquinhas, porra! Fazem-te bullying? No meu tempo também pegavam comigo e não me queixava. És assediad@? Não sejas fácil. "A vossa geração só se sabe queixar e reclamar de tudo, nunca fazem nada por vocês abaixo. Na minha época era mais difícil e aqui estamos nós."
         Dizemos aos mais novos para pararem de fazer perguntas porque são chatos, para pararem quietas porque estão a fazer barulho, para deixarem de ser crianças quando querem ser ouvidas, para deixarem de ser indecisas quando não escolhem, para não chorarem porque passa, para não interromper os adultos porque estão a ter conversas sérias. É chato ser criança, mas também é chato ser adulto.
Diz-se e muda-se o rumo da conversa quando devia continuar a mesma. Então sim, na próxima vez que eu disser que não quero crescer, não é uma referência a Peter Pan: é porque crescer tornou-se sinónimo de esquecer. 

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